A aproximação entre instituições de ensino superior e salas de aula da educação básica voltou ao centro do debate sobre a formação de professores no Brasil. Programas federais, novas regras para estágios e relatos de escolas que recebem estagiários indicam que a prática em campo se tornou prioridade para elevar a qualidade da licenciatura e da pedagogia.
Exigência de prática no Enade Licenciaturas
Implantado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC) em 2024, o Enade Licenciaturas passou a avaliar não apenas conhecimentos teóricos, mas também competências pedagógicas. Na fase de testes, o estudante deve elaborar uma sequência didática, aplicá-la em uma escola e ter o desempenho analisado on-line por um professor da instituição de estágio ou por um supervisor cadastrado no sistema do exame.
“Esse formato fortalece o diálogo entre universidade e escola”, afirma Luis Paulo Martins, diretor da Faculdade Sesi de Educação, em São Paulo. Para ele, a aferição prática estimula cursos superiores a construírem parcerias estáveis com redes públicas e particulares, a fim de garantir experiências reais de docência aos futuros professores.
Pé-de-Meia Licenciaturas apoia alunos de baixa renda
Outra iniciativa recente é o Pé-de-Meia Licenciaturas, criado em 2025 dentro do Programa Mais Professores. O benefício concede bolsa mensal de R$ 1.050 a estudantes presencialistas de licenciatura que alcançaram ao menos 650 pontos no Enem e pertencem a famílias de baixa renda. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), 7.158 estudantes foram contemplados no primeiro ano do programa.
Os dados do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) mostram aumento na procura por licenciaturas presenciais: os aprovados cresceram de 12.473 em 2025 para 17.884 em 2026. No mesmo período, os cursos presenciais ofertados via Sisu passaram de 2.086 para 2.278. O MEC pretende tornar o Pé-de-Meia política pública permanente até 2026.
Limite ao ensino a distância nas licenciaturas
A Nova Política de Educação a Distância, editada em 2025, proibiu a abertura de cursos 100% on-line de pedagogia e licenciatura. Quem já estava matriculado poderá concluir os estudos nessa modalidade, mas novas turmas precisam ter presencialidade majoritária.
Na prática, a mudança busca responder a críticas como as de Maura Raulino e Julci Machado, diretora e vice-diretora da Escola Estadual Dom José Baréa, em Três Cachoeiras (RS). Há pelo menos quatro anos, a dupla não recebe mais estagiários de cursos presenciais da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), cujo campus mais próximo fica na vizinha Torres, a 30 km de distância. “A qualidade caiu muito; o despreparo é total, desde a apresentação”, diz Maura sobre estagiários formados a distância.
Segundo as gestoras, acadêmicos do EAD permanecem pouco tempo na escola, focam apenas em cumprir horas obrigatórias e raramente se engajam no projeto pedagógico. A ausência de coordenadores de estágio, comuns no modelo presencial, também é apontada como fator de enfraquecimento da supervisão.
Experiências locais indicam diferenças de envolvimento
Comparações com estudantes do Instituto de Educação Maria Angelina Maggi, que oferece o chamado “normal médio”, reforçam a percepção. Muitos desses estagiários regressam à escola onde estudaram até o 9º ano, demonstrando familiaridade e maior compromisso com as atividades.
Em outra frente, cursos como psicologia e fisioterapia mantêm alta carga presencial e, segundo Julci, enviam estagiários mais motivados. No caso da psicologia escolar, o aluno pode chegar a três períodos de estágio na educação básica, participando de reuniões pedagógicas e assumindo projetos de acompanhamento de turmas.
Cinco estagiárias de fisioterapia da Ulbra também passaram pela Dom José Baréa. Depois de mapear necessidades da equipe, aplicaram técnicas de relaxamento a professores e servidores, atividade elogiada pela comunidade escolar.
Imagem: divulgação
Modelo de residência educacional no Sesi
Com cursos gratuitos e em tempo integral, a Faculdade Sesi de Educação adotou residência educacional como eixo central da formação. Desde o primeiro semestre, o universitário cumpre 10 horas semanais de estágio e participa de duas horas de reunião com supervisores. A cada semestre, docentes da instituição assumem grupos de estudantes e acompanham o desenvolvimento das atividades em escolas da rede pública e da própria rede Sesi.
“Tentamos romper a lógica de simplesmente cumprir carga horária. O estudante volta à faculdade para discutir o que vivenciou, iluminando a teoria a partir da prática”, explica Martins. Para as escolas que recebem residentes, há contrapartidas: formações, atendimentos agendados e apoio a grupos de reforço, além de gratificações e bolsas de especialização para professores supervisores.
Carandá prioriza pesquisa e congresso de estagiários
Em São Paulo, a escola particular Carandá Educação recebe cerca de 50 estagiários por ano, majoritariamente vindos de graduações presenciais. Segundo a diretora Ana Cristina Dunker, o estágio é tratado como espaço de formação e pesquisa. Desde 2013, a instituição organiza o Congresso de Formação de Estagiários, evento gratuito que reúne em média 130 pessoas para apresentações de projetos desenvolvidos pelos estudantes ao longo do ano.
Os trabalhos são orientados por professores regentes e coordenadores pedagógicos. A escola ainda oferece um curso específico — presencial e on-line — para quem deseja aprofundar a experiência. A previsão é estender essa formação a todas as cinco escolas particulares paulistas integrantes do grupo OEP, criado em 2025.
Indicadores de adesão crescente
No plano nacional, os números reforçam a ideia de retomada do interesse pela docência. O MEC registrou aumento de 62% no total de calouros com mais de 650 pontos no Enem que escolheram licenciaturas presenciais em 2025. Na Faculdade Sesi de Educação, o reflexo foi imediato: o recorde de matrículas subiu de uma média de 260 para 280 ingressantes no ano passado e chegou a 330 neste semestre, após a maior procura já verificada no vestibular da instituição.
Embora os relatos de despreparo de estudantes formados a distância persistam, diretores de escolas e faculdades consideram que a combinação de avaliação prática, bolsas de permanência e restrições ao EAD representa um passo importante para aproximar universidade e educação básica — etapa reconhecida como decisiva para a construção da identidade profissional do futuro docente.
Com iniciativas em implantação e ajustes na legislação, a formação inicial de professores no Brasil passa a exigir, cada vez mais, presença efetiva em sala de aula, supervisão qualificada e parcerias duradouras entre instituições de ensino superior e redes escolares.
Com informações de Revista Educação
