Um grupo de pesquisadores de três universidades – Universidade da Califórnia em Irvine (UC Irvine), Universidade de Indiana em Bloomington e Universidade de Bremen, na Alemanha – lançou no outono passado o TEACH-AI, iniciativa que pretende formar futuros docentes do ensino fundamental e médio para empregar a inteligência artificial (IA) em sala de aula sem ignorar seus impactos ambientais.
Quem está por trás da proposta
A equipe é coordenada pela professora associada Asli Sezen-Barrie, titular da cátedra de Educação Climática e Ambiental da UC Irvine. A pesquisadora explica que o objetivo central é duplo: oferecer alfabetização em IA e, ao mesmo tempo, discutir de forma crítica o custo ambiental das tecnologias digitais. O projeto nasce em meio a debates sobre o consumo de recursos dos data centers: estudos citados pelo grupo estimam que instalações nos Estados Unidos podem chegar a utilizar tanta água quanto 10 milhões de pessoas e emitir quantidade de carbono equivalente à de 10 milhões de automóveis.
Por que a IA continua atraindo educadores
Apesar das preocupações, Sezen-Barrie reconhece que simplesmente vetar o uso de sistemas como o ChatGPT tornou-se inviável. Professores relatam ganhos em tarefas complexas, sobretudo na preparação de conteúdos interdisciplinares sobre mudanças climáticas. “Há benefícios que docentes e estudantes já percebem”, afirma. O desafio, segundo ela, é habilitar os profissionais para escolher ferramentas adequadas, alinhar essas soluções aos objetivos pedagógicos e ponderar a relação custo-benefício ambiental de cada recurso.
Panorama das inquietações docentes
Levantamentos preliminares do TEACH-AI indicam que educadores com forte consciência ambiental tendem a adotar postura mais cautelosa do que se imaginava. Mesmo em redes de ensino que avançam na implementação de IA, esses professores apontam motivos para adiar ou limitar o emprego das plataformas. Relatos semelhantes foram ouvidos por parceiros do projeto na Alemanha, revelando preocupação global com a pegada de carbono e o consumo de água envolvidos no processamento de grandes volumes de dados.
Curso piloto “Uma educação para futuros sustentáveis”
Para atender essa demanda, o consórcio prepara o curso Uma educação para futuros sustentáveis, voltado a licenciandos e professores em formação continuada. A proposta combina dois eixos:
- Uso da IA para compreender as mudanças climáticas – foco em coleta, análise e projeção de dados científicos sobre o aquecimento global, incêndios florestais, desperdício de alimentos e moda sustentável.
- Alfabetização em IA – entendimento de como funcionam os algoritmos, quais são seus vieses e quais efeitos ambientais decorrem de diferentes configurações tecnológicas.
A iniciativa também pretende criar atividades que estimulem estudantes a calcular o impacto de energia e a emissão de carbono de cada aplicativo utilizado em projetos escolares.
Ferramenta StoryAI busca reduzir consumo de energia
Entre os recursos a serem testados no curso está a StoryAI, desenvolvida por colegas da Universidade de Indiana. O sistema foi desenhado para um propósito educacional específico, o que, de acordo com os responsáveis, diminui a necessidade de processamento intensivo e, consequentemente, o gasto energético. A plataforma utilizará grandes conjuntos de dados para produzir narrativas sobre temas ambientais, mas com ênfase em eficiência computacional.
Análise de diretrizes oficiais
Paralelamente ao desenvolvimento do curso, o TEACH-AI conduz uma análise documental de orientações estaduais da Califórnia, diretrizes educacionais na Alemanha e recomendações da Unesco. A meta é identificar pontos de convergência entre alfabetização ambiental e competência digital para, posteriormente, propor políticas que integrem as duas frentes. Sezen-Barrie ressalta que discussões sobre viés de linguagem e dependência tecnológica já aparecem em programas de mestrado profissional, mas o impacto ambiental da IA ainda não recebe atenção equivalente.
Imagem: Internet
Importância da formação cidadã
Para os organizadores, a educação básica tem papel decisivo na construção de conhecimento que influenciará futuras decisões públicas. “As pessoas votam, definem políticas e precisam compreender dados complexos”, observa Sezen-Barrie. Ao equipar professores com ferramentas e critérios de avaliação ambiental, o projeto espera ampliar o debate sobre utilização responsável da inteligência artificial em sala de aula e na sociedade.
Próximos passos
O TEACH-AI prevê concluir a primeira versão do curso até o fim do próximo ano letivo. Após a fase piloto, os materiais deverão ser disponibilizados a outras instituições interessadas em inserir a temática em seus currículos. A expectativa é de que a combinação entre alfabetização em IA e consciência climática se torne componente permanente na formação docente, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países.
Com o avanço das matrículas em programas de pós-graduação voltados à tecnologia educacional, Sezen-Barrie acredita que o momento é oportuno para introduzir a discussão ambiental. “Precisamos preparar os educadores para esse julgamento”, resume. Enquanto isso, a equipe continua refinando ferramentas, coletando dados e ajustando metodologias que possibilitem integrar inovação, sustentabilidade e ensino de qualidade.
O curso “Uma educação para futuros sustentáveis” será gratuito para os participantes da fase inicial e deverá reunir licenciandos das três universidades envolvidas, além de professores de redes escolares parceiras. Os organizadores planejam publicar relatórios sobre o impacto pedagógico e ambiental das experiências realizadas, fornecendo subsídios para que escolas e sistemas de ensino avaliem a adoção de tecnologias de IA em larga escala.
Até lá, o TEACH-AI segue como laboratório vivo de investigação sobre as fronteiras entre inteligência artificial, educação e clima, oferecendo aos professores a chance de experimentar soluções digitais sem desconsiderar a saúde do planeta.
Com informações de Revista Educação

