Em 21 de janeiro de 2026, a educadora Melinda Medina relatou como transformou a exaustão dos colegas em uma cultura de cuidado dentro de uma escola pública do Brooklyn, nos Estados Unidos. O relato, publicado pelo site EdSurge, revela como iniciativas simples, centradas no bem-estar coletivo, ajudaram a conter o avanço do burnout docente após a pandemia de Covid-19.
Cansaço generalizado virou rotina
Segundo Medina, o sinal de alerta surgiu durante uma reunião pedagógica. Enquanto a direção apresentava dados de desempenho e calendários de ensino, professores mantinham os olhos fixos em laptops, ombros curvados e canecas de café pela metade. “Éramos educadores tentando nos manter de pé em um sistema que esquecerá que somos humanos”, escreveu a docente.
A pandemia deixou marcas profundas: estudantes regressaram às salas de aula com novas camadas de trauma, famílias enfrentavam luto e instabilidade financeira e os docentes absorviam essas emoções diariamente. Apesar disso, formações continuavam ocorrendo, rubricas permaneciam inalteradas e a expressão “autocuidado” repetia-se sem oferecer alívio real. Para Medina, o sentimento ia além do burnout; tratava-se de luto, desconexão e necessidade urgente de comunidade.
Questionário simples deu início à mudança
Em busca de respostas, a professora decidiu ouvir o corpo docente. Lançou um formulário no Google com uma pergunta central: “O que lhe traz alegria?”. Em poucos dias, a caixa de entrada foi inundada de sugestões. A partir delas, nasceu o Staff Community Moments, programa que abre duas vezes por semana as salas de aula para encontros descontraídos no fim do expediente.
As atividades variam conforme o interesse dos voluntários:
- a professora de espanhol montou um estúdio improvisado para aulas de salsa, embaladas por risos e passos ousados;
- Medina mesma ensinou noções básicas de Língua Americana de Sinais (ASL), substituindo a fala por gargalhadas enquanto colegas treinavam gestos recém-aprendidos;
- no ginásio, outra docente conduziu sessões de ioga, lembrando o grupo de respirar e aliviar tensões corporais;
- o professor de artes transformou a própria sala em ateliê, permitindo que todos pintassem ao som de música suave;
- a professora de francês criou um ambiente de café parisiense, com petiscos, chaveiros da Torre Eiffel e expressões do idioma.
Não havia lista de presença nem obrigatoriedade: quem quisesse entrava, participava e saía quando achasse conveniente. Após um dos encontros, uma colega confessou: “Não percebi o quanto precisava disso até agora”. Para Medina, esses momentos não consertam o sistema educacional, mas lembram que o valor de cada profissional ultrapassa planos de aula e métricas de desempenho.
Trauma silencioso entre educadores
No mesmo período, a professora coorganizou, junto a uma conselheira escolar, uma formação sobre salas de aula informadas pelo trauma. O ponto de partida foi a escala de Experiências Adversas na Infância (ACEs, na sigla em inglês), usada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA para medir exposições a abuso, negligência ou disfunção familiar na infância.
Estudos citados pela capacitação indicam que pontuações elevadas em ACEs aumentam o risco de doenças crônicas, depressão, enfermidades autoimunes e morte precoce. A surpresa veio quando o próprio corpo docente preencheu o questionário: muitos registraram quatro pontos ou mais. Vários relataram insônia, enxaquecas, ataques de pânico e a sensação de que a sala de aula despertava antigos instintos de sobrevivência.
O peso do trauma secundário
Além das experiências pessoais, professores lidam com a dor dos alunos. O conceito de estresse traumático secundário (STS) descreve o abalo emocional de quem escuta relatos de trauma em primeira mão. Nas escolas, ele aparece em comportamentos, ausências, silêncios e explosões inesperadas.
Imagem: Internet
Duas pesquisas destacadas por Medina ajudam a dimensionar o problema:
- a publicação “Preventing Secondary Traumatic Stress in Educators” aponta que quase 50% dos docentes sofrem algum nível de STS, com sintomas que vão de insônia a entorpecimento emocional;
- outro estudo revela que mais de 90% dos profissionais escolares relatam sinais de STS, sendo que quase metade apresenta níveis considerados graves.
No cotidiano, a educadora assistiu a colegas saindo da sala para respirar depois de conter crises de comportamento, chorando após ouvir relatos de abuso, comprando alimentos e roupas para alunos em situação de rua ou acompanhando estudantes ao hospital em casos de ideação suicida. “Trauma, assim como alegria, é contagioso, e os professores estão na linha de frente sem equipamento de proteção”, escreveu.
Elementos de uma cultura de cuidado
Para Medina, reconstruir a cultura escolar não exige grandes investimentos, mas intencionalidade. Ela elencou quatro pilares que funcionaram em sua escola:
- Bem-estar que nasce de dentro – Oportunizar que docentes conduzam atividades de acordo com suas paixões, mantendo o calendário livre de sobreposições e sem tornar a participação obrigatória.
- Formação traumainformada voltada aos adultos – Incluir reflexão sobre ACEs nas capacitações, explicar impactos biológicos do trauma e oferecer apoio contínuo, como encaminhamentos a serviços de saúde mental e sessões de mindfulness.
- Círculos de apoio entre pares – Criar grupos voluntários, mensais, focados em escuta e reflexão, com participação aberta também a lideranças.
- Liderança compassiva – Diretores devem adotar práticas que considerem a humanidade da equipe: horários flexíveis, pausas de bem-estar, cargas de trabalho realistas e checagens de rotina sobre o estado emocional, não apenas sobre planos de aula.
Impacto percebido em um ano
Doze meses após o início do Staff Community Moments, a atmosfera escolar mudou. Laços surgiram entre profissionais que raramente conversavam, e trocas sobre currículos abriram espaço para interesse genuíno pela vida pessoal dos colegas. Estudantes também notaram o clima diferente: professores sorriam mais, colaboravam e demonstravam afeto, exibindo na prática como se constrói cuidado comunitário.
Embora a ação não altere as exigências burocráticas do sistema educacional, Medina defende que o bem-estar de quem ensina não é luxo. Sem atenção ao impacto do trauma, o burnout permanece inevitável e a rotatividade segue alta. “Construir uma cultura de cuidado é um ato de resistência contra um sistema que mede o valor do educador apenas pela produtividade”, concluiu.
O relato integra a série “Voices of Change”, do EdSurge, que reúne experiências de educadores de diversas regiões. O conteúdo tem apoio da Chan Zuckerberg Initiative, com controle editorial mantido pelo veículo, e está licenciado sob Creative Commons CC BY-NC-ND 4.0.
Com informações de EdSurge

