São Paulo, 9 de fevereiro de 2026 – Formar professores com foco em sustentabilidade deixou de ser tema periférico e passou a ser requisito para enfrentar impactos diretos da crise climática dentro e fora das salas de aula. A avaliação é da professora e pesquisadora Carla Conti, que defende uma preparação docente transdisciplinar e voltada para a leitura crítica do território.
Consequências da crise climática já afetam o cotidiano escolar
De acordo com Conti, a mudança do clima compromete a qualidade da água, reduz o acesso a alimentos, altera padrões de saúde das famílias e dificulta a mobilidade urbana. Tais fatores, observa ela, repercutem imediatamente na vida escolar, gerando aumento das faltas, vulnerabilidade das famílias, dificuldades de aprendizagem e desafios de convivência.
Para a pesquisadora, “educar para sobreviver” implica reconhecer que as dimensões ambiental, social e territorial são inseparáveis. O professor, nessa perspectiva, assume papel central como mediador entre problemas socioambientais, desigualdades estruturais, violações de direitos e caminhos para uma vida comunitária digna.
Formação docente ainda é fragmentada
Apesar da urgência, a formação de professores segue majoritariamente disciplinar e compartimentada por áreas do conhecimento. Esse modelo, aponta Conti, limita uma abordagem integral, necessária para lidar com os desafios contemporâneos. Ela sublinha que ensinar sustentabilidade exige ferramentas que permitam:
- Leitura crítica do território;
- Compreensão das vulnerabilidades locais;
- Diálogo com diferentes culturas;
- Estimulo à participação democrática.
Na visão da docente, tais instrumentos ajudam a demonstrar que cuidar do planeta é indissociável de cuidar das pessoas, e vice-versa.
Sustentabilidade como orientação de mundo
Parte da resistência ao tema, segundo Conti, decorre da ideia de que sustentabilidade seria “mais um conteúdo” para o educador. Ela contesta a percepção: “Não se trata de adicionar disciplina, mas de adotar uma orientação de mundo que permeie relações, práticas e decisões, da gestão escolar à sala de aula”.
Nesse sentido, incluir tópicos como cidadania, cultura de paz ou valores humanos em documentos curriculares não basta. Para surtir efeito, esses valores precisam ser vivenciados diariamente no ambiente escolar. Relações que contrariem princípios de respeito, justiça e acolhimento, alerta a pesquisadora, enfraquecem qualquer discurso pedagógico.
Abordagem transdisciplinar e projetos conectados ao território
Conti coloca a transdisciplinaridade como caminho potente para articular currículo e problemas reais. A prática estimula que projetos pedagógicos se transformem em espaços de investigação e ação coletiva. Exemplificando, ela cita a horta escolar: quando planejada além do cultivo, a horta vira laboratório para discutir segurança alimentar, desigualdade no acesso a alimentos, gestão de resíduos, pertencimento comunitário e cooperação.
“A escola possui inúmeras possibilidades de integrar sustentabilidade ao cotidiano. A horta é apenas uma delas”, assinala. Ao conectar diferentes saberes, o projeto amplia repertórios e promove aprendizagem significativa.
Imagem: divulgação
Coragem para romper muros e reconhecer o território
Para a autora, pensar a formação docente sob o eixo da sustentabilidade requer coragem e resistência. Coragem para romper os muros da escola e admitir que ela faz parte do território e das crises que o atravessam; resistência para abrir espaço, em sala de aula, a temas essenciais à construção de sujeitos críticos e comprometidos com o bem comum.
Quando professores e estudantes compreendem-se como comunidade educativa, ressalta Conti, surgem diálogos sobre questões que realmente afetam suas vidas. Esses processos fortalecem vínculos, ampliam repertórios e sustentam práticas pedagógicas mais contextualizadas e transformadoras.
Perfil da autora
Carla Conti é doutora em políticas públicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutora em gestão da informação pela Universidade do Porto. Professora na Universidade Estadual de Goiás, atua na graduação e no mestrado em educação, pesquisando educação em direitos humanos, gênero e tecnologias digitais. A autora lançou a segunda edição do livro Sustentabilidade no ensino superior, 15 anos após a primeira publicação, reforçando a pertinência do tema diante das urgências ambientais e sociais.
A acadêmica sustenta que a escola concentra “algumas das melhores possibilidades de resposta” à crise climática porque é onde crianças e jovens aprendem a interpretar o mundo. “Formar professores para a sustentabilidade é um ato de coragem”, conclui, enfatizando que a mudança cultural começa pelo exemplo dado diariamente pelos educadores.
As declarações de Conti integram artigo publicado originalmente em 9 de fevereiro de 2026 na plataforma Revista Educação, direcionada a profissionais e gestores da educação básica das redes pública e particular.
Com informações de Revista Educação
