São Paulo, 14 de janeiro de 2026 – A sobrecarga de trabalho e a falta de suporte psicológico transformaram o esgotamento emocional dos professores em um problema estrutural na educação brasileira. Levantamentos recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e do Censo Escolar mostram que mais de 60% dos docentes relatam altos níveis de estresse e exaustão, sobretudo no início e durante todo o ano letivo.
Indicadores nacionais e internacionais
O cenário brasileiro acompanha a tendência global. Relatórios da Unesco apontam o magistério entre as profissões mais atingidas pelo burnout, com impactos diretos na aprendizagem, na convivência escolar e na permanência dos próprios educadores nas redes de ensino.
Pós-pandemia agravou a crise
A pandemia de covid-19 elevou a pressão sobre os profissionais. Segundo estudo do Instituto Península, quase 70% dos professores afirmam ter acumulado mais tarefas e sentido cobrança maior por resultados durante e após o ensino remoto emergencial. A adaptação repentina a tecnologias digitais, muitas vezes sem formação adequada, somou-se ao papel de apoio socioemocional a estudantes e famílias em situação de vulnerabilidade.
Consequências para a sala de aula
Escolas com equipes esgotadas registram menos engajamento discente, aumento de indisciplina e queda no desempenho acadêmico. Relatos de docentes da rede pública paulista descrevem jornadas que ultrapassam 10 horas diárias, divididas entre planejamento, correção de avaliações, reuniões administrativas e atendimento a familiares, sem espaço para descanso ou formação continuada.
Silêncio institucional
A falta de políticas voltadas ao bem-estar de quem ensina agrava o problema. Entrevistas conduzidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) apontam a ausência de canais de escuta e de apoio psicológico nas escolas, inclusive em regiões com índices elevados de estresse e evasão docente. A prioridade continua sendo cumprir metas e avaliações externas, enquanto a saúde mental dos profissionais permanece em segundo plano.
Obrigações legais
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que estabelecimentos de ensino adotem medidas para prevenir estresse e ansiedade ocupacionais. Apesar da exigência, ainda são raros os sistemas que implementam programas sistemáticos para cuidar da saúde mental dos professores.
Experiências que funcionam
Exemplos pontuais mostram que o quadro pode ser revertido. Na rede municipal de Florianópolis (SC), a criação de grupos de escuta e apoio reduziu em 25% os relatos de sintomas de burnout em apenas um ano. Já na Escola Estadual Professor Vicente Rodrigues, em Minas Gerais, rodas de conversa semanais e horários de planejamento coletivo resultaram em melhoria do clima interno e maior motivação para elaborar aulas criativas.
Formação docente repensada
Especialistas afirmam que cursos de licenciatura e programas de formação continuada precisam ir além de técnicas pedagógicas, incluindo estratégias de autocuidado, gestão do estresse e suporte emocional. Para eles, o esgotamento não é um problema individual, mas sim transversal: afeta estudantes, famílias e a qualidade da educação como um todo.
Números que reforçam a urgência
• Mais de 60% dos professores relatam estresse elevado, segundo Pnad e Censo Escolar.
• Cerca de 70% perceberam aumento de carga de trabalho no período pandêmico, de acordo com o Instituto Península.
• Nas escolas de Florianópolis que implantaram grupos de apoio, houve redução de 25% nos sintomas de burnout em um ano.
Risco de evasão docente
A sobrecarga tem levado muitos profissionais a abandonar a carreira. Estudos internacionais indicam correlação entre exaustão emocional e alta rotatividade, fenômeno que compromete a continuidade de projetos pedagógicos e onera os sistemas de ensino com custos de contratação e formação de novos educadores.
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O que dizem os professores
Docentes consultados pelo Inep relatam sensação de fadiga constante e frustração por não conseguirem conciliar as demandas pedagógicas com a própria saúde. Muitos afirmam que a falta de reconhecimento institucional contribui para a ideia de que o desgaste é parte inerente da profissão.
Iniciativas recomendadas
Pesquisadores e gestores que vêm obtendo resultados positivos apontam quatro frentes prioritárias:
1. Acolhimento psicológico – implantação de grupos de escuta, atendimento individual e redes de apoio.
2. Organização do tempo – redefinição de carga horária, distribuição de tarefas e proteção de momentos de pausa.
3. Participação docente – criação de instâncias em que professores possam opinar sobre decisões pedagógicas e administrativas.
4. Valorização profissional – reconhecimento público, planos de carreira atrativos e formação voltada ao cuidado integral.
Reflexos na aprendizagem
Estudos citados pela Unesco mostram que escolas que investem em bem-estar docente registram desempenho acadêmico mais alto, maior participação dos alunos e menor índice de conflitos. A correlação reforça a ideia de que cuidar de quem ensina é condição para melhorar resultados educacionais.
Enquanto programas de apoio ainda são exceção, a maioria dos professores continua enfrentando jornadas extensas e múltiplas responsabilidades sem respaldo adequado. Nos depoimentos colhidos por pesquisas nacionais, a frase mais recorrente é a mesma: “falta alguém que nos escute”.
Para especialistas, a visibilidade crescente do tema e as experiências bem-sucedidas em redes pontuais indicam caminhos possíveis. Entretanto, eles alertam que, sem políticas de larga escala e compromisso das gestões escolares, o esgotamento emocional tende a permanecer como obstáculo central à qualidade do ensino no país.
Com informações de Revista Educação

