O 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, volta a colocar no centro das atenções a necessidade de construir uma educação que combata o racismo e promova condições iguais de aprendizado para todos os estudantes. Para marcar a data, a Revista Educação reuniu duas entrevistas — com as educadoras Gina Vieira Ponte e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva — e uma reportagem sobre desigualdades que afetam alunos pretos, pardos e brancos no país.
Quem são as entrevistadas
Gina Vieira Ponte é professora da rede pública e criadora do Projeto Mulheres Inspiradoras, iniciativa voltada à leitura, ao letramento e à escrita que já recebeu cerca de 20 prêmios. Seu trabalho se destaca por romper modelos tradicionais de ensino e por estimular o diálogo com os estudantes a partir de narrativas que abordam gênero, raça e direitos humanos.
Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, por sua vez, é professora, pesquisadora e relatora das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Reconhecida por defender a pluralidade de saberes, ela propõe o questionamento da hegemonia do conhecimento que tradicionalmente pauta o currículo escolar.
Foco em educação antirracista
Na entrevista concedida à revista, Gina Vieira Ponte afirma que “uma educação para as relações étnico-raciais é uma educação que amplia a nossa forma de pensar, que nos ajuda a acessar outros saberes que, inclusive, vão permitir pensar futuros diferentes”. Para a docente, iniciativas voltadas à valorização da cultura afro-brasileira e africana potencializam o sentimento de pertencimento dos alunos e favorecem a construção de ambientes escolares mais justos.
Petronilha Gonçalves reforça essa ideia ao destacar que o ensino deve convidar à “quebra da hegemonia do conhecimento e da convivência”. Segundo a professora, reconhecer diferentes matrizes culturais na sala de aula é condição indispensável para superar práticas discriminatórias e para garantir que cada estudante seja tratado com dignidade.
Desigualdade educacional em números
A reportagem publicada pela Revista Educação traz dados que escancaram a distância que ainda separa estudantes pretos e pardos de seus colegas brancos. Segundo o levantamento apresentado, alunos pretos e pardos registram, em média, um atraso de cerca de dez anos na conclusão do ensino fundamental. Esse indicador revela como fatores sociais, econômicos e raciais se combinam e impactam o percurso escolar.
O material também reúne depoimentos de especialistas que apontam caminhos para enfrentar o problema. Entre as recomendações, estão a adoção de metodologias que dialoguem com a realidade dos estudantes, a valorização da diversidade nos materiais didáticos e o investimento em formação continuada para professores na área de relações étnico-raciais.
Projeto Mulheres Inspiradoras
Criado por Gina Vieira Ponte, o Projeto Mulheres Inspiradoras baseia-se na leitura de biografias de mulheres de diferentes origens, com recortes que incluem trajetórias de ativistas negras. A partir dessas leituras, os alunos desenvolvem produções textuais e projetos de pesquisa voltados à defesa de direitos e à promoção da equidade.
A iniciativa já recebeu cerca de 20 prêmios em âmbito nacional, fato que, segundo a docente, demonstra que experiências comprometidas com a inclusão racial podem ser reconhecidas e replicadas em outras escolas. “Quando o estudante se vê representado, ele passa a acreditar que também pode ser protagonista da própria história”, afirma Gina na entrevista.
Diretrizes curriculares e políticas públicas
Relatora das Diretrizes Curriculares Nacionais que tratam da educação das relações étnico-raciais, Petronilha Gonçalves lembra que o documento foi aprovado em 2004, mas ainda enfrenta barreiras para sair do papel. Para ela, a efetivação das diretrizes depende de políticas públicas que garantam infraestrutura, materiais adequados e formação docente.
Imagem: Tainá Frot
A professora defende, ainda, que o currículo seja constantemente revisitado para incorporar vozes historicamente silenciadas. “Não basta incluir conteúdos sobre África e cultura afro-brasileira em datas pontuais; é necessário que esses saberes permeiem todas as áreas do conhecimento ao longo do ano letivo”, sustenta.
Recomendações de especialistas
Na reportagem, estudiosos do tema apontam diversas estratégias que podem contribuir para tornar a escola mais acolhedora para estudantes negros:
- Formação continuada: qualificar educadores para reconhecer e combater práticas racistas presentes no cotidiano escolar.
- Material didático inclusivo: adotar livros e recursos pedagógicos que retratem positivamente personagens negros em diferentes contextos.
- Acompanhamento individualizado: criar mecanismos de apoio para alunos em situação de defasagem idade-série, evitando evasão.
- Parceria com famílias e comunidade: fortalecer redes de apoio e participação de lideranças locais na construção de projetos educativos.
Importância do 20 de novembro
O Dia da Consciência Negra foi instituído em referência à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, símbolo da resistência contra a escravidão. Nas escolas, a data serve como momento de reflexão, mas especialistas lembram que o debate sobre equidade racial deve ser permanente. Gina Vieira e Petronilha Gonçalves concordam que a transformação acontece quando o compromisso com a diversidade se torna parte da rotina pedagógica, e não apenas de eventos pontuais.
Papel da imprensa especializada
Há três décadas no mercado, a Revista Educação direciona seus conteúdos a gestores e profissionais da educação básica, tanto da rede pública quanto da particular. Ao publicar entrevistas e reportagens sobre equidade racial, o veículo busca oferecer subsídios para que as escolas aprimorem suas práticas e avancem no cumprimento da legislação que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana.
Os materiais divulgados neste 20 de novembro convidam educadores a refletir sobre as barreiras que ainda limitam o acesso de estudantes pretos e pardos a uma formação de qualidade. Ao mesmo tempo, evidenciam projetos e políticas que podem contribuir para superar tais obstáculos.
Ao reunir vozes experientes como Gina Vieira Ponte e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, além de apresentar dados concretos sobre desigualdade, a publicação reforça que a construção de uma educação antirracista depende de iniciativas articuladas — do currículo à gestão escolar, passando pela formação docente e pelo engajamento das comunidades.
Assim, o Dia da Consciência Negra se consolida como oportunidade para fortalecer compromissos e traçar estratégias que garantam o direito de aprender em condições equânimes, condição fundamental para o desenvolvimento pleno de todos os estudantes.
Com informações de Revista Educação
