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    Capacitação Profissional

    Educação antirracista impulsiona interesse de estudantes negros pelas ciências

    ivandromkt@gmail.comBy ivandromkt@gmail.comjunho 26, 2026Nenhum comentário5 Mins Read
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    São Paulo (SP) – 11 de junho de 2026. Projetos apresentados no evento “Educação Antirracista em Foco”, promovido pela Fundação Santillana no Museu da Imigração, mostraram caminhos para aproximar crianças e jovens negros das áreas de ciências exatas, ciências da natureza e tecnologia. As iniciativas, que vão da educação infantil ao ensino médio, foram debatidas em mesa mediada pela professora Nilma Lino Gomes, ex-ministra do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e primeira mulher negra a chefiar uma universidade pública federal.

    Práticas antirracistas começam na creche

    A professora Cristina Teodoro, docente adjunta da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB) e pesquisadora vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), destacou que o estímulo às ciências precisa acontecer a partir da creche. “Desde bebês, as crianças são cientistas. Elas testam hipóteses, investigam gravidade, calculam distâncias e diferenciam texturas”, afirmou. Para Teodoro, práticas antirracistas na primeira infância ajudam a romper a visão colonial que separa ser humano e natureza e determina quem pode produzir conhecimento.

    Segundo a pesquisadora, o racismo estrutural afasta alunos negros dos campos de lógica, matemática e investigação científica. “Há uma construção social que carimba a criança como inapta para a abstração”, disse. “Negar-lhes o direito de investigar o mundo é empurrá-las para a invisibilidade.”

    Como resposta, ela descreveu três experiências realizadas em escolas de educação infantil de São Francisco do Conde (BA) dentro de um subprojeto do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID):

    1. Feira do brincar com elementos da natureza: crianças manusearam ramos de alecrim, manjericão e outras plantas, observaram texturas e cheiros e aplicaram passos do método científico para investigar propriedades botânicas. A atividade culminou na criação de uma horta lúdica, que integrou biodiversidade local e saberes de famílias de matriz africana e indígena.

    2. Confecção de chocalhos: utilizando milho branco e amarelo, feijão preto, sementes de girassol e sal grosso, os estudantes exploraram conceitos de acústica, densidade, massa e ressonância. “Eles percebiam diferenças de peso e som ao sacudir cada instrumento”, relatou Teodoro.

    3. Ateliê fotográfico: as crianças aprenderam noções de ângulo, distância e enquadramento ao registrar imagens do próprio cotidiano escolar.

    Projeto “Investiga, Menina!” leva ciência a 4 mil estudantes

    A professora Ana Maria Canavarro Benite, titular da Universidade Federal de Goiás (UFG) e coordenadora do Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão (LPEQI), apresentou o “Investiga, Menina!”. O programa de pesquisa e extensão oferece formação e acompanhamento pedagógico semanal em química, física, biologia e matemática a escolas periféricas do estado. Atualmente, 4 000 estudantes participam das atividades; todos podem frequentar, mas apenas meninas negras recebem bolsas.

    “Trabalhamos em parceria com docentes das disciplinas e apresentamos um currículo baseado na experiência de mulheres negras”, explicou Benite. Para ilustrar, ela citou a aula sobre células, que além da estrutura celular inclui a história de Henrietta Lacks, norte-americana negra cujas células foram coletadas sem consentimento em 1951 e se tornaram base para inúmeras pesquisas. Na sequência, as alunas conhecem o trabalho da cientista brasileira Célia Mariana Barbosa de Souza, que investiga o tema e estimula discussão sobre ética na ciência.

    Educação antirracista impulsiona interesse de estudantes negros pelas ciências - Imagem do artigo

    Imagem: Samp Mídia

    Música como “cavalo de Troia” para o antirracismo

    Flávio Assis, geógrafo, escritor, músico e doutorando em Educação na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP-USP), relatou a estratégia de incorporar canções em aulas de ensino médio para introduzir debates sobre desigualdades raciais. “Não digo que será uma aula de antirracismo. Digo: ‘Hoje o tema é espaço urbano’, e então trago uma música de Gilberto Gil”, contou.

    De acordo com o professor, a arte atua como elemento de desarme. “A música acessa o sensível, aquilo que toca o coração. A partir daí, conseguimos discutir questões raciais no contexto da geografia”, explicou. Assis canta e toca violão em sala, criando um ambiente em que o conteúdo curricular se combina com reflexões sobre justiça social.

    Mediação de Nilma Lino Gomes

    A mesa foi mediada por Nilma Lino Gomes, que em 2013 tornou-se a primeira mulher negra reitora de uma universidade pública federal ao assumir a UNILAB. Hoje, ela atua como consultora de Políticas Antirracistas para a Fundação Santillana. Ao abrir o debate, Gomes enfatizou que iniciativas como as apresentadas demonstram caminhos concretos para a implementação da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira em todas as escolas.

    Segundo Gomes, aproximar estudantes negros das ciências não é apenas questão de representatividade, mas também de justiça cognitiva. “Precisamos reconhecer que a produção de conhecimento deve refletir a diversidade da população brasileira”, afirmou.

    Desafios e continuidade

    Embora os projetos relatem avanços, os participantes alertaram para a necessidade de apoio institucional contínuo. Cristina Teodoro destacou a importância de formação inicial e continuada para professoras e professores, garantindo que práticas antirracistas façam parte do cotidiano escolar. Ana Benite ressaltou que ações como o “Investiga, Menina!” dependem de bolsas e parcerias para se manterem. Já Flávio Assis defendeu a ampliação de espaços para a arte na escola, permitindo que abordagens interdisciplinares cheguem a mais turmas.

    O evento reuniu educadores, gestores e pesquisadores de diferentes regiões, reforçando a ideia de que a educação antirracista é um compromisso coletivo. Apesar dos desafios, as experiências apresentadas indicam que intervenções planejadas, contextualizadas e sensíveis à realidade dos estudantes podem transformar o acesso de crianças e jovens negros ao conhecimento científico.

    Com informações de Revista Educação

    ivandromkt@gmail.com
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