Durante o segundo dia da Bett Brasil, no Expo Center Norte, em São Paulo, o pedagogo e formador de docentes Doug Alvoroçado afirmou que a docência atravessa uma “multiplicação de perfis” e já não se limita à sala de aula tradicional. No painel “Quando o influenciador vira educador e o educador vira influenciador”, apresentado às 15 h de 6 de maio, o especialista explicou que parte do corpo docente deseja ocupar plataformas como YouTube, Instagram e TikTok para ensinar, empreender e divulgar conhecimento.
Profissão em transformação
Segundo Alvoroçado, a função de educar não desaparece, mas se ramifica. “Dentro de alguns anos veremos o professor que só faz mentoria individual, o que palestra em congressos, o que se dedica às redes e o que permanece no contato presencial com pequenos grupos”, descreveu. Para ele, a popularização dos ambientes digitais deu ao magistério um “campo vasto de experimentações” semelhante ao já explorado por milhões de criadores de conteúdo.
Essa reconfiguração, pontuou, exige revisão das formações iniciais e continuadas. “O mundo mudou, o docente mudou e os desejos da profissão também. Há quem sonhe com o quadro-negro, mas há quem deseje um canal no YouTube. A universidade está preparada para isso?”, indagou.
Aprendizagem em redes sociais
O debate sobre o uso de redes por crianças e adolescentes ganhou força após a entrada em vigor, em março, do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211/2025), conhecido como ECA Digital. A norma estabelece responsabilidades para famílias, plataformas e poder público na proteção de menores on-line. No entanto, a lei não tem como objetivo direto promover aprendizagem – lacuna que, segundo Alvoroçado, poderia ser ocupada pela escola e pelos próprios docentes.
“A rede social não foi concebida para ensinar, mas isso não nos impede de ensinar lá dentro. Se o educador se ausenta, o espaço fica disponível para produtores que nem sempre se comprometem com ciência ou qualidade”, observou o palestrante, que atua na Coordenadoria de Inovação e Tecnologia da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME/RJ) e leciona no Colégio Estadual Heitor Lira.
Do medo da tecnologia ao uso pedagógico
Alvoroçado conduz formações sobre recursos digitais para professores da rede carioca. Ele reconhece avanços: “O medo vem diminuindo. Antes, qualquer equipamento ligado na tomada parecia ‘coisa de engenheiro’. Hoje há mais curiosidade e disposição para transformar tecnologia em estratégia de ensino”. O processo, descreve, é “trabalho de formiguinha”, mas já produz resultados, sobretudo quando os docentes percebem que a exposição on-line pode ampliar o alcance de suas vozes.
Em seu próprio perfil nas redes, o pedagogo aborda temas como Atendimento Educacional Especializado (AEE) – área em que é pós-graduado – e estratégias inclusivas. “Eu queria ser um professor quieto, apenas em sala. Mas, se quero espalhar a palavra sobre uso responsável de tecnologia, preciso aparecer. Quem não é visto não é lembrado”, declarou.
Papel de influenciador sob nova ótica
Para o palestrante, chamar um professor de influenciador não diminui a docência. Pelo contrário: “Influenciar é profissão recente. Há quem incentive hábitos saudáveis e há quem induza bobagens. O professor tem conteúdo embasado e pode influenciar positivamente”. Ele ressalva, porém, que nem todo docente precisa surgir diante das câmeras. “Alguém pode escrever roteiros, validar cientificamente a informação ou editar vídeos. O importante é que a escola não feche a porta para o diálogo digital”, aconselhou.
Imagem: pessoal
Dupla jornada: presencial e digital
Alvoroçado divide a rotina entre o trabalho presencial – planejamento de aulas e acompanhamento de turmas – e a produção de conteúdo on-line. Essa combinação, contou, amplia a carga horária, mas também o impacto. “Trabalho mais, mas minha voz chega mais longe. Ganhar milhares de seguidores e circular em eventos confere autoridade ao professor, desde que o discurso siga ancorado na ciência”, destacou.
Mesmo assim, reconhece que a presença nas redes é opcional e pode ser temporária. “Nem todo mundo terá a mesma disposição o tempo todo. O que não dá é ignorar as plataformas. Se o docente sai de cena, alguém ocupará o lugar e nem sempre com a mesma responsabilidade educacional”, alertou.
Bett Brasil reúne inovação e educação
A edição 2026 da Bett Brasil – considerada um dos maiores encontros latino-americanos de tecnologia educacional – ocorre de 5 a 8 de maio, na capital paulista. O evento recebe professores, gestores, pesquisadores e empresas do setor. Além de Alvoroçado, a programação inclui rodas de conversa, demonstrações de soluções digitais e debates sobre inteligência artificial, políticas públicas e metodologias ativas.
A cobertura do encontro, realizada por diversos veículos especializados, também discute os impactos iniciais do ECA Digital, a formação de professores para a cultura on-line e a busca por evidências científicas que sustentem práticas inovadoras. Nesse cenário, o testemunho de Doug Alvoroçado reforça a ideia de que a identidade docente continuará se expandindo para além dos muros da escola.
Até o encerramento da feira, a expectativa dos organizadores é receber educadores de todo o Brasil interessados em descobrir como transformar a popularidade das redes sociais em aprendizado significativo, mantendo o compromisso ético que caracteriza a atividade de ensinar.
Com informações de Revista Educação
