São Paulo – 11 de dezembro de 2025. Em artigo publicado na edição 317 da Revista Educação, o jornalista, educador e escritor Alexandre Sayad, mestre em inteligência artificial e ética pela PUC-SP e apresentador do programa Idade Mídia (Canal Futura), defende que a inteligência artificial (IA) seja entendida como forma de mediação e linguagem entre pessoas e mundo, e não apenas como ferramenta de automação. O autor sustenta que a capacitação docente deve liderar esse processo para evitar que as escolas fiquem defasadas em relação ao restante da sociedade.
Desconfiança em cartas abertas
No texto, Sayad analisa a carta aberta divulgada no fim de 2025 pelo Future of Life Institute, documento que alerta para riscos de um suposto “descontrole humano” diante do avanço da IA. Manifestações semelhantes, assinadas por empresários do setor, especialistas e figuras públicas, já haviam sido publicadas em anos anteriores. O jornalista demonstra ceticismo em relação a esse tipo de mobilização, principalmente porque alguns dos signatários, como Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk, estariam, segundo ele, “entre os responsáveis” pelos problemas que pretendem denunciar.
Sayad observa ainda que outras personalidades aderem aos manifestos sem domínio técnico do tema ou por “interesses de classe”, a exemplo da cantora Kate Bush, também presente na lista de signatários. Para o autor, se os possíveis perigos são tão graves, os próprios empresários poderiam adotar medidas concretas — como frear a corrida por inovações, revisar modelos de negócio ou implantar protocolos éticos nas próprias companhias — em vez de apenas emitir alertas.
Existência de iniciativas centradas no ser humano
O colunista contesta a ideia de que inexistam caminhos científicos que priorizem uma IA orientada por valores humanos. De acordo com ele, laboratórios do mundo todo já desenvolvem abordagens nesse sentido. “Ensinar é participar do processo de neuroplasticidade do outro”, recorda, citando a neuropsicóloga Adriana Fóz para reforçar a necessidade de compreender a tecnologia a partir de sua influência direta na aprendizagem.
Impactos cotidianos, não distópicos
Para ilustrar o caráter prosaico dos efeitos da IA, Sayad remete a uma entrevista concedida nos anos 1990 ao programa Roda Viva pelo escritor norueguês Jostein Gaarder, autor de O Mundo de Sofia. Questionado sobre temas místicos, Gaarder respondeu que “não precisa atravessar um rio para buscar água do outro lado”. O jornalista aplica a metáfora para argumentar que os impactos da tecnologia são “mais mundanos, simples e cotidianos” do que cenários apocalípticos de rebelião de máquinas.
IA estatística, vieses e dados sintéticos
Sayad ressalta que os sistemas de IA se baseiam em modelos estatísticos de probabilidade e que o erro faz parte de sua natureza. Além disso, softwares desenvolvidos por pessoas absorvem valores e preconceitos humanos, muitas vezes de forma involuntária. Outro ponto destacado é a proliferação de bases de dados sintéticas — informação criada por outras IAs — que alimentam novos modelos. Esse processo, comparado pelo autor a uma brincadeira de “telefone sem fio”, reduz gradativamente a qualidade, a integridade e o valor dos conteúdos.
Diante dessas fragilidades, o jornalista considera arriscado confiar cegamente em pesquisas ou textos produzidos inteiramente por IA sem verificação de fontes. Sem acompanhamento multidisciplinar, supervisão ética e auditorias, algoritmos podem resultar em informações imprecisas, discriminatórias ou potencialmente perigosas.
Efeito imediato nas salas de aula
Na avaliação de Sayad, os primeiros ecos da integração homem-máquina costumam se manifestar nas salas de aula da educação básica. Para enfrentar o fenômeno, ele propõe a combinação de currículo adequado, programas de formação docente e espaços de debate estruturados. Dados da Unesco citados pelo autor revelam que apenas 12 países possuem alguma matriz de IA aplicada à educação.
No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) elabora um referencial sobre o tema, já submetido a consulta pública. O documento se apoia em três eixos — estudantes, educadores e infraestrutura — inspirados nos marcos divulgados recentemente pela Unesco. A mesma tríade orientou os primeiros movimentos de educação midiática na Europa e nos Estados Unidos quase um século atrás, observa o colunista.
Formação de professores como prioridade
Para Sayad, compreender a IA como linguagem e mediação pressupõe que professores estejam na linha de frente. A qualificação continuada é vista como condição para impedir que escolas se mantenham “décadas atrás” do que acontece fora de seus muros. O autor indica que, além de ampliar o acesso à tecnologia, o foco deve estar na equidade de aprendizagem, para que todos os estudantes se beneficiem de maneira justa dos avanços.
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Ao longo do artigo, o jornalista reforça que a discussão sobre inteligência artificial no ambiente escolar não pode ser reduzida a ferramentas de produtividade. Segundo ele, a centralidade deve recair sobre a construção crítica de sentidos, a reflexão ética e o compromisso com a cidadania digital, elementos inseparáveis de um modelo educacional atualizado.
Edição 317 reflete debate ampliado
Publicada em meio a um cenário de rápidas transformações tecnológicas, a edição 317 da Revista Educação reúne reportagens e artigos voltados a gestores e profissionais da educação básica das redes pública e privada. Além da coluna de Sayad, o número traz contribuições de pesquisadores, neuroespecialistas, lideranças indígenas e docentes com atuação reconhecida dentro e fora do país.
Ao colocar o “elefante” da IA no centro da discussão, Sayad conclama gestores, professores e formuladores de políticas a reconhecer que a tecnologia já está presente na “loja de porcelanas” da humanidade. Para ele, ignorar essa realidade ou tratá-la unicamente como ameaça corre o risco de provocar “cada movimento desastroso” nas relações com o conhecimento e com a sociedade.
Com a consolidação de diretrizes nacionais, a expectativa do autor é que o Brasil avance no diálogo sobre uso responsável da IA, assegurando tanto a integridade dos dados quanto a inclusão de todos os estudantes no processo de inovação educacional.
O artigo não apresenta cronograma definido para a implementação do referencial do MEC, mas indica que o documento já se encontra aberto para sugestões da população, etapa considerada decisiva para alinhar as políticas públicas às recomendações internacionais estabelecidas pela Unesco.
Sayad encerra o texto reiterando que a inteligência artificial “não é uma mera ferramenta”, mas uma linguagem em construção coletiva, cujo domínio exige preparo técnico, sensibilidade ética e, sobretudo, formação docente contínua. Esse, enfatiza, é o desafio central colocado para o sistema educacional brasileiro diante da revolução tecnológica em curso.
Com informações de Revista Educação
