Um levantamento nacional conduzido pelo RAPID Survey Project, ligado ao Stanford Center on Early Childhood, revela que o desafio de conseguir uma vaga em serviços de cuidado infantil nos Estados Unidos deixou de ser um problema restrito às famílias de baixa renda. De acordo com o relatório, publicado em 21 de janeiro de 2026, pais de todas as faixas de rendimento relatam obstáculos tanto para arcar com os custos quanto para localizar opções seguras e confiáveis.
Quem são os entrevistados
O estudo avaliou o cenário vivenciado por responsáveis de crianças com menos de seis anos em todo o país. A classificação de renda adotada partiu da linha federal de pobreza, fixada em US$ 32.150 anuais para uma família de quatro pessoas em 2026. A partir desse valor, foram definidas três categorias:
• Baixa renda: até 200% da linha de pobreza;
• Renda média: entre 200% e 400%;
• Alta renda: acima de 400%.
Números que chamam atenção
Os pesquisadores destacam que, em junho de 2025, 73% dos pais em busca de cuidado infantil enfrentaram algum tipo de dificuldade. A proporção sobe para 85% entre as famílias de alta renda, chega a 75% entre as de baixa renda e atinge 67% no grupo de renda média.
Para o diretor do centro de pesquisas, Philip Fisher, a série histórica — iniciada em abril de 2020 — mostra um agravamento progressivo. “Os dados não podem ser descartados como uma anomalia. É possível acompanhar, mês a mês, como a situação piorou para lares em todos os patamares econômicos”, afirmou.
Dois obstáculos principais
1. Acessibilidade financeira
Os custos de creches e programas de pré-escola pesam no orçamento familiar, sobretudo em um período de alta nos preços de moradia, alimentos, utilidades, fraldas e fórmulas infantis. O cenário reforça constatações de um estudo da Brookings Institution, publicado em dezembro de 2025, segundo o qual um terço da classe média norte-americana luta para cobrir necessidades básicas, incluindo o cuidado infantil.
2. Disponibilidade de vagas
Além do valor cobrado, muitos pais simplesmente não encontram estabelecimentos próximos com estrutura adequada ou horários compatíveis. Entre aqueles que relataram dificuldade para localizar um serviço (20% da amostra), 60% apontaram a escassez de profissionais como principal razão.
Crise no setor de trabalho do cuidado infantil
Os problemas de oferta foram potencializados pela pandemia. Longas jornadas e salários historicamente baixos levaram a uma saída em massa de educadores e auxiliares. Consequentemente, milhares de creches reduziram turmas ou fecharam as portas, ampliando a procura por vagas remanescentes.
O contraste entre mensalidades altas e remuneração insuficiente fica ainda mais evidente com outro dado citado pelo levantamento: mais da metade dos trabalhadores do setor relatou enfrentar insegurança alimentar recente.
Interrupções frequentes
Mesmo quando conseguem vaga, os pais convivem com cancelamentos inesperados. Cerca de um terço dos entrevistados mencionou interrupções provocadas por falta de energia, doenças dos cuidadores, condições climáticas extremas ou preocupações de segurança.
Imagem: Internet
Uma mãe na Carolina do Norte relatou que a prestadora de serviços adoeceu e viajou no mesmo mês, deixando a família sem cobertura. Já em Indiana, um centro infantil suspendeu as atividades depois de um blecaute prolongado.
Reflexo na arena política
O avanço da crise ampliou a visibilidade do tema. Creche acessível apareceu nos discursos de campanha do recém-empossado prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e dos governadores eleitos na Virgínia e em Nova Jersey. Para Melissa Boteach, diretora de políticas da ONG Zero to Three, trata-se de um ponto em que candidatos veem possibilidade de vitória eleitoral. “As famílias consideram a situação insustentável, e isso atravessa o espectro ideológico”, declarou em entrevista ao EdSurge.
Iniciativas locais
Alguns estados e municípios começaram a transformar a retórica em programas concretos. Entre os exemplos recentes estão:
• Novo México: implementação de um sistema universal de cuidado infantil;
• Vermont: adoção de modelo de financiamento público para ampliar o acesso e reduzir mensalidades.
Panorama futuro
Embora o RAPID Survey Project tenha iniciado a coleta de dados há cinco anos, os pesquisadores afirmam que a abrangência das dificuldades observadas em 2025 é inédita. “Hoje vemos famílias com empregos estáveis e benefícios completos sentindo o aperto”, reforçou Fisher, citando a combinação de preços gerais elevados e salários que não acompanham os gastos extras com crianças pequenas.
À medida que o debate avança, especialistas apontam que a sustentação do setor depende de duas frentes: maior investimento público para aliviar as mensalidades e políticas de valorização profissional capazes de reter educadores. Sem isso, advertem, o ciclo de alto custo para pais e baixa remuneração para cuidadores tende a se perpetuar.
O relatório completo do Stanford Center on Early Childhood destaca ainda que as respostas colhidas em setembro de 2025 indicarão se as iniciativas locais começam a produzir efeitos. Até lá, pais de diferentes faixas salariais continuam a compartilhar um problema comum: equilibrar orçamento, trabalho e cuidado infantil em um momento em que encontrar uma creche disponível se mostra, cada vez mais, um grande desafio.
Com informações de EdSurge News

